A biblioteca é um lugar de encontro: de pessoas, de vozes, de caminhos, de tempos, de mundos. Um mar de palavras, onde na mínima curva, nos aguarda uma revelação.

Existe um lugar no movimento daqueles que encontram meu serviço de organização da biblioteca pessoal, que está ligado à idade. Leitoras e leitores que se esbarram com seus últimos anos, já desligades das ocupações de trabalho e vida social, agora revisitam suas décadas vividas. Toda uma construção de uma experiência e visão de mundo, refletidas em suas coleções livrescas.
O pensamento talvez se distancie cada vez mais daquilo que será, se aproximando do que foi e do que é. Nesse momento, as relações com o tecido do tempo se entrelaçam em um novo limiar, transitando entre lembrança e esquecimento. Aqui, nesse trânsito, a biblioteca é uma oficina da memória, e o bibliotecário um artesão dos encontros: organizando as sensações na suspensão do tempo e do espaço.

Nos caminhos dos livros em espaço íntimo, Lygia foi meu primeiro encontro. Em um de nossos primeiros dias juntes, li para ela e sua filha Bia, o trecho de Vermelho Amargo destacado acima. Ceramista, autora de enormes esculturas transformadoras do espaço público, nutriu uma vida de intenso movimento, viagens pelo mundo e companhias leais de muitas trocas literárias e criativas. Lygia era uma mulher contemplativa, encontrava com facilidade a alegria e o deleite nos detalhes da natureza, mas habitar o tempo da desaceleração, também carregava suas dificuldades… Talvez por isso, fortaleceu um fascínio particular pelas árvores, estas bibliotecas ancestrais de cerne, floema e casca, que crescem em retorcida direção do céu (e da terra). Antes de nós, elas já estavam aqui (Iza Guedes).
Um dia, compartilhei com Lygia o encontro de “a alma perdida”, da autora polonesa Olga Tokarczuk. Este livro conta a história de um homem que como consequência de ter se envolvido demais na aceleração da vida moderna, perde sua alma, que ficou para trás no tempo. Ele passa por uma crise de despersonalização, esquece-se de sentimentos e por fim de seu próprio nome. Ele visita uma médica que afirma que esse diagnóstico é muito normal, e o que ele deve fazer agora, é encontrar uma boa casa e uma cadeira bastante confortável, onde ele deverá sentar e esperar por sua alma. Essa história, ilustrada com os delicados desenhos de Joanna Concejo, concedeu à Lygia verdadeiros momentos de deslumbramento: lia o livro maravilhada, colocava o livro de lado, o esquecia, o encontrava com o olhar de canto, e novamente o lia encantada, adormecia, o esquecia, acordava, se deparava com a surpresa em seu colo, e outra vez se seduzia. Cada vez como se fosse a primeira.

Alguns anos atrás, realizei uma formação ministrada pelo escritor Daniel Munduruku, sobre histórias indígenas para infâncias. Ali, aprendi que infância é algo que todos nós possuímos independente de idade, e pode ser a qualquer momento alimentada. A infância é essa perspectiva de mundo guiada por uma ação de descoberta, uma atitude e uma inclinação para a vida de quem está pronte para o encontro de algo completamente novo.
Há dias que, mesmo cercades de um mar de caminhos e belezas que uma biblioteca (tal qual o próprio universo) é capaz de reunir, palavras se fazem muito pouco diante das terrosas densidades da existência e do envelhecimento. Nesses dias, é necessário a sensibilidade ágil e silenciosa de um passarinho, para encontrar as sementes e os frutos da infância. Muitas vezes, ainda me pego escutando a voz de Lygia, sensívelmente apegada a uma pequenina lavanda caída de um vaso, que decidiu carregar no peito por um dia inteiro. Com a flor em sua mão, proferiu quase que para o vazio:
“será que ela sabe que é linda?”
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