
É isso que eu faço, e talvez seja isso que você veio buscar aqui, então deixa eu contar um pouco de como é…
Trabalho a partir da perspectiva de que a memória é um campo de construção da nossa subjetividade, individual e coletiva. Sendo a biblioteca pessoal por excelência um dos tipos de evidência e expressão material dessa composição construída no tempo; toda biblioteca conta uma história que se expande a partir e para além de quem a construiu. Mas a biblioteca também é um organismo vivo, que se arquiteta e ressignifica nos encontros que acontecem a partir dela todos os dias, não está apegada ao passado, assim como a memória, é mutável no encontro de nossos afetos, que a compõem em movimento. Minha direção e conceito de trabalho, como bibliotecário, se realiza em recolher os diversos fios do tempo, da identidade e dos encontros e, com eles, tecer uma trama dessas narrativas. Toda biblioteca conta uma história, e como devoto das sensibilidades, ofereço a minha perspectiva de organização nessa escuta.
O processo de organização da biblioteca pessoal pode se desdobrar quase como uma escavação arqueológica, onde alguns encontros e descobertas são tão inevitáveis como inesperados. Cartas perdidas, documentos de gerações familiares distantes, dedicatórias, lembranças de viagens, empréstimos não retornados de amizades de longa data, tudo isso aparece para contar história. Além do mapeamento do próprio acervo bibliográfico, que identifica repetições, fases de interesses pontuais ou aprofundamento de buscas pessoais. Cada descoberta cria corpo e se aprofunda a partir da troca viva com quem se partilha o processo, uma memória que retorna, uma emoção que se revela, portais que se abrem.
Gosto de pensar que, mesmo um acervo privado, este não necessariamente se restringe a um universo fechado em si, pois uma biblioteca é este corpo que se compõe de muitas vozes, sejam aquelas escritas ou sejam aquelas que se alimentam e retroalimentam nesta arquitetura da expansão. A biblioteca é antes de tudo, um corpo físico situado no tempo e espaço, e assim, cada biblioteca é orbitada por uma constelação própria de relações e interesses que se compõe em uma vida, uma geração, um momento histórico, um grupo social. Quando se considera as camadas das dimensões subjetivo e afetiva desses universos, a organização se converte em um processo criativo e sensível; o processo de troca e escuta é tão importante quanto o objetivo final do acervo, e as associações que separam categorias não se comprometem com submissão à lógica racional e puramente temática, mas encontram essa possibilidade: de instigar a confluência de narrativas outras, construindo por sua vez, caminhos de uma leitura de mundo.
Assumo neste trabalho que o agente que orienta a organização (o bibliotecário) não é neutro e não há como sê-lo, diferente do que falsamente se prega sobre a racionalidade tecnicista, como bem aponta Jacques Derrida em Mal de Arquivo (me aprofundarei neste tópico em outro texto), ofereço minhas percepções pessoais, em diálogo destes acervos e suas fundadoras, como constitutivas de uma identidade própria de trabalho.
E não acredito que exista uma metodologia ou roteiro fechado do processo que consolida este tipo de organização, pois cada experiência é singular e reveladora de eventualidades próprias, mas acredito sim que, o coração desta criação curadora, se orienta pela troca, na escuta sensível e atenta do que se manifesta através das pessoas em contato com a biblioteca e seu processo. Pretendendo como resultado, uma biblioteca que acenda uma curiosidade leitora cativada pela sensibilidade, que conte uma história que permaneça aberta, e que também abra outras e novas formas de se relacionar com a memória.
Pretendo abrir aqui, nesse canal online, recortes de momentos, trocas, descobertas e resultados que constituem essa pesquisa. Assim como, à quem minha perspectiva interessar, alguns aprofundamentos temáticos e reflexões sobre articulação da memória dentro da biblioteca.
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