“Seus fantasmas bondosamente habitavam minhas estantes, e os livros que me deram ainda carregam suas vozes (…) Não tenho impressão de estar lendo o livro, mas de ouvi-lo sendo lido em voz alta por alguém.”
Alberto Manguel
Incluí esta citação na introdução de algumas propostas de trabalho de organização de bibliotecas. Nesse contexto, é em parte um lembrete e em parte um convite, para algo que se abre neste processo através das estantes: encontrar fantasmas. A pessoa que possui a biblioteca pode escolher o distanciamento ou a imersão de viver a experiência destes encontros, mas ao bibliotecário, estes serão inevitáveis, e atravessá-los com consciência e direção, é parte primordial dessa construção criativa.
Um fantasma pode ser uma pessoa, ecos de um passado presente inscritos diretamente sobre páginas em anotações, dedicatórias ou cartas… Mas também pode tomar a forma de perguntas, simbolismos, intenções sutis ou explícitas expressas em recorrências do próprio acervo, que podem ser inclusive heranças geracionais de ordem subjetiva. Um fantasma é um interlocutor silencioso de nossas próprias questões, é esta presença ausente, que justamente por não responder por si, está fadada às mais variadas e espectrais projeções e interpretações. Organizar uma biblioteca também é organizar essas imagens fantasmáticas.
Quem nos apresenta essa figura fantasma dentro do acervo da memória arquivada é Jacques Derrida, que estuda em Mal de Arquivo, os aspectos que compõem o arquivo enquanto instituição social e política, a partir de uma análise da formação dos arquivos de Freud. Processo no qual se confundem, não por acaso, a memória de sua família com a memória da identidade judaica e da própria psicanálise. O que me parece precioso no estudo de Derrida, é o aspecto no qual a aplicação rigorosa de linguagens e processos técnicos, revela que a racionalidade e a pseudo neutralidade às quais estes deveriam servir estão, na realidade, completamente atravessados pelos afetos reprimidos e recalcados deste projeto de sociedade patriarcal do qual somos, muitas vezes, forçosamente herdeires, ou melhor, nas imagens de Derrida, prisioneires. Pois o arquivo aprisiona a memória.
Derrida questiona os limites entre privado e público mas mais importante, demonstra como a formação de um acervo pode dissimular o acesso e interpretação das narrativas possíveis. É importante lembrar que as ferramentas e linguagens técnicas, disponíveis para a organização de bibliotecas, foram desenvolvidas por homens de uma corrente científica de pensamento universalista que, muitas vezes, apequenam não apenas a narrativa como a própria experiência para com a memória, campo de nossa subjetividade. E como agente responsável pela organização de acervos pessoais (acervos que por vezes podem tornar-se públicos), assumo a presença destes fantasmas como guias, em uma busca de uma interlocução mais sensível, não no sentido de construção de uma verdade, mas de uma possibilidade que é assumidamente criativa e portanto, perspectiva.
O trabalho mais experimental que realizei em torno desta questão foi na organização da biblioteca de Edith, uma pessoa que não conheci e que faleceu 14 anos antes da minha chegada à sua coleção. Leitora feroz, seus livros apresentaram-se à mim quase como um enigma, me perguntei muitas vezes quem era aquele fantasma que parecia se expressar com tanta identidade através de seus interesses. Não me cabia decifrá-la, mas recolhendo vestígios através de recortes de familiares e empregados, comecei a ficcionar uma imagem difícil de não escutar falar através das estantes. Ouvi dizer inclusive, que Edith faleceu lendo.
Mas não poderia me esquecer de que as perguntas que emergiam eram minhas e os destaques (assim como seleção de descartes) também partiam de um olhar atravessado por minhas visões daquela paisagem. Assumindo isto, decidi que gostaria de partilhar naquela organização uma visão da biblioteca enquanto veículo de viagem, no mundo mas acima de tudo, dentro de si. Para tal, criei duas coletâneas introdutórias de livros que pudessem ilustrar e enriquecer esse imaginário, O Viajante e O Labirinto. E nomeei as categorias seguintes de forma a abrir uma visão mais poética sobre a coleção, O Tempo para romances históricos e história, A Terra para literatura latino americana, A Sombra para thrillers psicológicos e assim por diante. Cada categoria ilustrada no catálogo, com uma imagem e citação presentes no próprio acervo. Mas apenas quando estava a ponto de finalizar a biblioteca, descubro que a maioria dos quadros que enfeitavam as paredes daquela residência foram pintados por ela. Algo que muda tudo.
A biblioteca sempre será incompleta. Assumir isto também é romper com os ideais universalistas que, até agora, só serviram ao apagamento da incrível diversidade e complexidade das quais nosso mundo é feito. Paradoxalmente, esta biblioteca incompleta será sempre infinita, pois a cada leitura possibilitará a abertura de um novo caminho, que como bem diz Jorge Luís Borges:
“que fatalmente se bifurca em outro, que fatalmente se bifurca em outro”
Deixe um comentário