Segunda-feira 5 de outubro de 2026. No ar, um tipo esquisito de ressaca emocional pós primeiro turno eleitoral, cujo resultado firma a vitória do ultraconservadorismo. Ao mesmo tempo que há um recorde histórico de mulheres eleitas, dentre as mais votadas, há explícitas defensoras do fim do voto feminino e demais pautas do fundamentalismo cristão. Não me extenderei em análises políticas, pretendo aqui, mobilizar o desconforto frente à ignorância e dissonância cognitiva, com aquilo que mais produz força e transformação na história: imaginação. Pois a imaginação é uma matéria desejante, que alimenta a vitalidade que nos mantém em movimento… e em desobediência. E na minha perspectiva de trabalho, a biblioteca deve ser por excelência um espaço que alimente e proporcione o crescimento de nossas capacidades imaginativas, de futuro, de conexão, de emancipação. Infelizmente o óbvio precisa ser dito, e nenhum projeto de país que valorize minimamente livros e bibliotecas, poderia compactuar com os discursos escolhidos pelas urnas neste último domingo.

Retomarei aqui o exercício imaginativo que pede conselhos literários às cartas. Simplesmente pela razão de que me diverti muito com este caminho interpretativo e mais do que nunca isso basta, pois a alegria é uma ferramenta ancestral de sobrevivência, como bem diz a canção de Belchior “a felicidade é uma arma quente”. Então embaralhei as cartas, quais caminhos de leitura podem nos inspirar nesse momento?

Seis de Copas: aquilo que retorna. Lembranças de infância, vínculos antigos, algum lugar dos nossos afetos que é conhecido, e continua vivo dentro de nós. Algo do passado que significa o nosso presente, memórias que carregamos de um tempo qual não tínhamos as ferramentas para compreender a experiência, e que talvez por isso, permanecem no movimento de retorno em nossas emoções. O caminho indicado por esta carta me levou à “Clarice” de Roger Mello. Narrado por uma criança, a protagonista compartilha memórias reconstruídas a partir de fragmentos, um amontoado de sensações esquisitas pulando drásticamente de lembrança em lembrança cheias de buracos, no meio de perguntas que os adultos nunca respondem. Clarice é uma criança na Ditadura Militar. Tenta compreender o silêncio, desaparecimentos, mensagens incompletas, coisas que ela percebe mas nunca são nomeadas.

Pelos fragmentos contextuais do enredo, podemos entender que os pais de Clarice são estudiosos e fazem parte de uma comunidade de relacionamentos progressistas. Em contexto de perseguição ditatorial, a mãe de Clarice é responsável por destruir e esconder livros de seus amigos. O método mais eficaz e seguro de invisibilidade encontrado por ela, é amarra-los às pedras e jogá-los em um lago, e é essa imagem que impera o imaginário confuso da narradora. Um lago que engolhe livros, uma água feita de palavras submersas e dissolvidas que hora invade seu sonhos em pesadelo. Clarice pode não compreender, mas sente e carrega este sentimento: medo. Os adultos não apenas negam explicações, mas negam as próprias lembranças que Clarice carrega e com as quais sonha. Então a criança decide: se suas lembranças não são reais, pode fazer delas o que bem entender, e nesse momento o texto organiza um labirinto que mistura sonhos, fatos e imaginação. O livro fala sobre perda, mas uma perda silenciosa, repleta de incompreensões. E fala dos livros, imagina os lugares de transmissão que poderiam acontecer através deles, mas que foram destruídos e se perderam, ou se reorganizaram em caminhos obscuros. Não é possível voltar ao passado, mas podemos descobrir o que ele deixou em nós. O que fazemos com isso? O que merece ser levado adiante?

Dez de Copas: pertencimento. A plenitude emocional da realização afetiva compartilhada, uma coletividade na qual é possível existir como se é, sem precisar se defender. Vínculos nos quais existem relações profundas de reconhecimento. Dez é o fim do naipe de Copas, antecede o recomeço dos Ás, sendo a plenitude que antecede uma nova nascente. O que eu imagino quando penso o que é estar em casa? Onde e com quem posso sentir que pertenço? Nestas perguntas, encontrei “Pertencimento: uma cultura do lugar” de Bell Hooks. Neste livro profundamente sensível a autora faz um movimento de retorno ao lugar que cresceu: as montanhas Apalaches do Kentucky, lugar no qual a mesma aprendeu em comunidade que a conexão e intimidade com a natureza são formadoras de valores, gestos e modos de cuidar próprios de uma continuidade ancestral.

Hooks passeia pela relação de pertencimento com a natureza enquanto uma ferramenta de liberdade, e através de passagens de autoras e autores diversos da literatura negra, demonstra as forças da natureza como transmissoras de qualidades de expressão, generosidade, responsabilidade, autocontrole, ludicidade, coragem, apreço pela diferença e diversidade. Valores apreendidos na contemplação respeitosa das montanhas e todas as vidas que nela acontecem. Teórica fundamental dos pensamentos feminista e antirracista, a autora nos apresenta sua vivência pessoal no atrito com a segregação racial do supremacismo branco e do fundamentalismo cristão.

A autora conta que quando deixa o campo para seguir os estudos na cidade, vive um processo de adoecimento, exílio e despersonalização, criando uma relação entre localização geográfica e estado psicológico. Se a natureza possilita liberdade, a cidade e seu projeto de sociedade capitalista desestimulam o crescimento social e emocional, construindo psicológicos reprimidos e corrompidos, produtores de violência. Hooks demonstra que a glorificação da morte e o desmerecimento da vida humana e das florestas, é uma desconexão planejada, que favorece a exploração de minérios e terras raras. Quando desrespeitamos e violamos o meio ambiente, nossa existência é diretamente violada e enfraquecida. O sujeito urbano contudo, não consegue perceber esta relação, pois normalizou a destruição e não vivencia a contemplação da natureza como caminho de obtenção de forca subjetiva, forma de existir própria das comunidades ancestrais tanto perseguidas e ridicularizadas… pelo projeto capitalista, uma ferida inflamada cheia de pus que não para de inchar no caminho de putrefamento de nossa sociedade. Neste livro, as relações de pertencimento não são apenas interpessoais, mas territoriais. E pertencer é participar da construção do lugar no qual podemos existir, sobretudo através de sua defesa, em um contexto político de expresso desejo de destruição.

Nove de Ouros: a autonomia enquanto direito de desenvolver um mundo próprio. Aprender a habitar e cultivar aquilo que construimos é a própria experiência da abundância. Não estamos correndo atrás de algo, estamos presentes diante do resultado de nosso próprio trabalho de cuidado. Esta carta fala de experiências de prazer e beleza, o saboreamento dos frutos resultantes do tempo e da consistência nele operada. O que florece quando cultivamos algo que é somente nosso? Conhecimento, autenticidade, autoconfiança, autonomia. Nesta carta darei um salto histórico, com a escolha de “Enreduana” de Roger Mello.

Poetisa, filósofa e sacerdotisa da antiga Mesopotâmia, Enreduana é a primeira pessoa da humanidade a escrever literatura. Neste livro infantil, sua história é contada por um grão de areia, o menor do mundo. O grão fala, o pequeno e insignificante testemunha e atravessa o tempo para nos contar suas visões, transformando a experiência de perspectiva e pertencendo à história. Enreduana vive em um mundo que tenta determinar o lugar que ela deve ocupar, de subordinação. Sua invenção, a poesia, coloca pulgas nas orelhas do rei e ideias na cabeça do povo. Incomodado com a inspiração das palavras, o irmão de Enreduana a expulsa do reino. Exilada, Enreduana produziu as maiores e mais significantes de suas obras: a Exaltação de Inana e A Descida de Inana ao Mundo dos Mortos. Inana é a deusa suméria do amor e da guerra, arquétipo feminino primordial de indomabilidade.

No tempo do exílio, sua ausência e de suas palavras se fazem como um verdadeiro buraco no Reino de Ur. Seu próprio irmão, acaba ficando confuso e perdido, até que decide pedir o retorno da escritora. Enreduana retorna como uma rainha, acompanhada de animais, plantas, estrelas e todos os elementos que uniu em seus poemas, sua voz é a força que conduz o seu retorno glorioso. Mesmo que o mundo ao redor de Enreduana mude, ela permanece com algo que é só dela e de seu coração. O jardim de Enreduana é sua linguagem. Sua palavra imersa em beleza e raiva, lhe conferiu pertencimento eterno na história.

“Feito um dragão envenenaste / feito inundação que desce da montanha / supremo ser de céu e terra Inana / que choves chamas sobre a nação (…) são os teus grandes ritos quem há de sondá-los? Devastação de terras que deste asa à tempestade / e quando a humanidade vem a ti / em temor e tremor por teu relume tempestuoso / assim recebes a paga devida”

Enreduana, (2285-2250 a.C)

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