Imagine-se em um esvaziamento de ideias, seja pelo excesso ou pela ausência, neste momento tudo lhe escapa os caminhos, construindo uma repetição de dúvidas. Mas a produção de questionamentos, a elaboração de perguntas é também um momento de abertura. Ou de releitura, rumo à novas perspectivas. Imaginou?

Neste dia, após um extenso período de chuvas incessantes, o céu se abre. O sol lhe convida para um passeio, que te leva à uma biblioteca. Então você e sua busca chegam à bibliotecária, quais livros poderiam te inspirar nesta crise? Mas você percebe algo diferente na disposição dos livros, sua lógica nao é aparente, as associações que aproximam um título do outro possuem uma peculiaridade misteriosa e enquanto questiona-se sobre tal mistério, a bibliotecária embaralha cartas. Ela pergunta: o que você busca? E então coloca as cartas na mesa, cada carta corresponde à um livro. E o processo se evidencia, os caminhos se desenham. Livros no corredor à esquerda, estante de Copas.

A imaginação desta cena é inspirada por uma história real. No século XIX a popularidade do baralho, associada ao alto custo do papel, produziu um uso inesperado das cartas, que transformaram-se em materiais essenciais para bibliotecários na produção de fichas catalográficas. Baralhos incompletos ou cartas danificadas poderiam servir seus versos à escrita, em seus variados destinos. Escritores como Saint-Lambert, Benjamin Constant e Rousseau produziram obras completas, discursos e declarações de amor ou fabulações eróticas em cartas de Valete de Paus, Rei de Espadas, entre tantas outras. Esta memória da história da escrita me trouxe a seguinte pergunta: e se livros fossem categorizados a partir dos naipes e seus valores?

Mencionado brevemente em texto anterior Jacques Derrida, assim como Sam Bourcier, demonstram que todo arquivo enquanto conjunto de memórias e informações, como um corpo feito de pele e osso ou capa e papel, possui camadas performativas. Neste contexto, a performance é uma ação, uma forma de organizar e apresentar a memória que constitui uma força que conduz ou aproxima os corpos em um tempo comum, uma narrativa, uma experiência, uma identidade. A performance elabora a memória, a partir de um lugar de discurso, e se inscreve sobre o tempo com suas intenções, podendo estas serem determinações fechadas ou abertas, de perpetuação de projetos de poder ou de construção de caminhos emancipatórios e imaginativos.

A bibliotecária, ao organizar uma coleção, também conduz à sua maneira uma performance. As ferramentas que dispomos para tal exercício entretanto, foram produzidas e são reprodutoras de um pensamento ocidental universalizante, que classifica o mundo e suprime suas complexidades e diversidades sobre sua luz positivista. Condicionando nosso olhar para o conjunto do conhecimento em sua leitura: patriarcal, binária, colonialista, racional. Imaginar a construção de outras categorias, mais abertas às complexidades do real, é deslocar este condicionamento que afeta diretamente a construção de nossa subjetividade.

Seguindo com o exercício que convoca o baralho enquanto ferramenta de deslocamento interpretativo, realizei uma tiragem simples, cuja pergunta pede novos caminhos de imaginação. A partir das cartas, busquei em minha própria biblioteca pessoal livros que se conectassem com as simbologias articuladas por elas: Às de Copas, Seis de Paus e Nove de Espadas.

Ás de Copas é referente ao naipe das emoções, nesta carta, elas estão em um ponto de ínicio, indicando a abertura da sensibilidade, no encontro de uma linguagem para aquilo que ainda não tem nome. No deck por mim escolhido, Roots of Asia, é apresentado dentro do cálice um imenso mar. Imagem que me remete à Kalunga, o mundo profundo das coisas que ainda não existem, de onde tudo vem e para onde tudo vai, a força cíclica ancestral. Nesta carta, a água dentro do cálice, o mar, está transbordante, simbolizando expressão. No japonês, ao que refere-se à criação e o surgimento de algo novo, existe um kanji cuja tradução é “mar”, e seu significado carrega a ideia de algo além do qual não se pode ver. Para os Ás de Copas, escolhi o fotolivro “Butsudan” de Akira Kodato e Yuji Kodato. Em imagens intercaladas de avô e neto, combinando natureza às memórias familiares da imigração, foi onde melhor encontrei a ressonância da sensibilidade, de uma linguagem para aquilo que ainda não tem nome. A coragem e o frescor de um barco que acaba de deixar o porto, mas que já leva consigo uma história.

Seis de Paus é uma carta do naipe da vitalidade, da energia que se movimenta no impulsionamento da ação. O que me move? O que desejo criar? O Seis de Paus marca a passagem da expressão do individual para o mundo, é o reconhecimento. Nesta carta, os símbolos que se apresentam são um leão brilhante e imponente sobre uma gigante flor de lótus. O leão é a força, o lótus é o renascimento: é uma imagem de superação. Para esta carta optei por uma escolha ambígua, “Um sopro de vida” de Clarice Lispector. Neste livro são exploradas as relações entre criador e criatura, identidade e expressão. Dar forma ao que existe dentro de nós, envolve o movimento dessa voz com lugares próprios no mundo, que por sua vez, podem nos escapar. O Seis de Paus evoca a passagem do que antes era insegurança para independência, e no livro escolhido, o enredo é conduzido pela própria Clarice, refletindo sobre o ato de criação. Ela cria uma personagem, Angela, que ao longo do livro experiencia a evolução de sua própria consciência. Clarice a observa e a conduz em um delírio de sua próprioa autonomia. A autora reconhece a força de sua criação, e a criação é reconhecida por si mesma em seus próprios poderes, que já não podem ser contidos.

Nove de Espadas é uma carta sobre conflito… interno. É uma mente que segue buscando resoluções, mesmo quando não há respostas. Fala do sofrimento emocional causado pelas próprias angústias do ego, influenciando nossas experiências. Nesta carta a imagem é de um pássaro, símbolo da liberdade, com suas asas abertas mas sobre elas, as espadas, pesando seu voo. Aqui, escolhi “Nadja” de André Breton, livro que inaugura o surrealismo na literatura e parte de um encontro real do autor com uma musa errática. O texto transita entre ensaio, poesia, diário, telegrama, panfleto, fotografia, em um exercício ansioso de decifração de símbolos das ruas de Paris e de uma objetificação enigmática desta figura nomeada Nadja. No livro, o autor esbarra à todo tempo com a angústia, que o mesmo projeta em Nadja. Ele explora sua própria inquietação diante do desconhecido, e ao buscar significado para todo encontro, sua percepção se perde no transito entre imaginação e realidade, vivendo os acasos como uma persistente perturbação. Mas um dos questionamentos mais potentes movimentados pela obra, refere-se ao olhar para o outro, tensionando a liberdade imaginativa do autor com a autonomia da própria pessoa que ele transforma e observa, reduzindo-a a objeto criativo. Nessa narrativa a angústia percebe, interpreta e organiza o mundo.

O conselho do Nove de Espadas aponta que nem toda inquietação é uma pergunta que necessita ser respondida, algumas perguntas, precisam de tempo.

Referências:

BOURCIER, Sam. As políticas do arquivo vivo. In: IRINEU, Bruna A.; Et. Ali. Políticas da vida: coproduções de saberes e resistências. Salvador: Devires, 2021. 

DERRIDA, Jacques. Mal de Arquivo. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.

GRAVEREAU, Simone Breton. L´Aventure des écritures: Matières et formes. Paris: Bibliothèque Nationale de France, 1999.

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